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Compulsão alimentar: sinais, causas e tratamento

Comer além da conta numa festa ou num dia cansativo acontece com todo mundo. Mas quando a comida vira um episódio que você não consegue interromper, seguido de culpa e vergonha, e isso se repete toda semana, pode ser mais do que um hábito. Pode ser o transtorno de compulsão alimentar.

Neste texto, você vai ver os sinais, a diferença para o comer emocional, o que a pesquisa diz sobre o tratamento com psicoterapia e por que o foco do cuidado não precisa ser o peso.

O que é compulsão alimentar?

No dia a dia, compulsão virou sinônimo de comer muito. Na saúde mental, o transtorno de compulsão alimentar é um diagnóstico com critérios definidos, reconhecido oficialmente no DSM-5, o manual de diagnósticos da Associação Americana de Psiquiatria.

Segundo uma revisão publicada na Nature Reviews Disease Primers, o quadro envolve episódios em que a pessoa come uma quantidade grande de comida num período curto, como até duas horas, com a sensação de perder o controle. Para o diagnóstico, esses episódios precisam acontecer pelo menos uma vez por semana durante pelo menos três meses. Eles também precisam causar sofrimento e vir acompanhados de pelo menos três de cinco características, como comer muito mais rápido que o normal ou comer sem fome.

Outro ponto importante: a pessoa não costuma compensar o que comeu com vômitos, laxantes ou jejum. Quando isso acontece com regularidade, o quadro se aproxima da bulimia, que é outro transtorno.

Quais são os sinais da compulsão alimentar?

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) lista sinais como:

  • comer quantidades muito grandes em pouco tempo;
  • comer rápido durante os episódios;
  • comer mesmo quando está cheio ou sem fome;
  • comer até ficar desconfortavelmente cheio;
  • comer sozinho ou escondido, por vergonha;
  • sentir angústia, vergonha ou culpa depois de comer;
  • fazer dietas com frequência, às vezes sem perder peso.

O NHS, serviço público de saúde do Reino Unido, acrescenta sinais que outras pessoas podem notar, como tentar esconder o quanto come e guardar estoques de comida.

Ter um ou outro desses comportamentos de vez em quando não significa ter o transtorno. Só uma avaliação profissional pode dizer, e este texto não substitui essa conversa.

Qual a diferença entre compulsão alimentar e comer emocional?

Comer emocional é usar a comida para lidar com sentimentos. É o chocolate depois de um dia pesado ou o lanche para aliviar o tédio. É algo muito comum e, sozinho, não é um diagnóstico.

A compulsão alimentar vai além em alguns pontos. No episódio de compulsão, a quantidade é grande e a sensação é de não conseguir parar. Os episódios se repetem pelo menos uma vez por semana, por meses seguidos. E depois vêm culpa, vergonha ou nojo intensos, que pesam no humor e na rotina.

As duas coisas têm uma ligação. A revisão da Nature Reviews aponta o humor negativo como um gatilho imediato dos episódios de compulsão. Por isso, aprender a lidar com as emoções é uma parte central do tratamento.

A compulsão alimentar é comum no Brasil?

É mais comum do que muita gente imagina, e boa parte das pessoas nunca recebe tratamento. Um estudo com dados das Pesquisas Mundiais de Saúde Mental da OMS, com 24.124 adultos de 14 países, encontrou o transtorno em 1,4% das pessoas em algum momento da vida, considerando a mediana entre os países. Na amostra de São Paulo, a taxa foi de 4,7%, a mais alta entre os 14 levantamentos. Só 38,3% das pessoas que tiveram o transtorno receberam algum dia tratamento específico para problemas alimentares.

Um estudo mais recente, feito no Rio de Janeiro com 2.297 adultos de 18 a 60 anos, encontrou 1,4% de pessoas com o transtorno no momento da pesquisa. Só 42,4% delas já tinham buscado tratamento.

Compulsão alimentar tem a ver com o peso?

Aqui é preciso cuidado, porque o tema costuma vir carregado de julgamento. A compulsão alimentar aparece com mais frequência em pessoas com obesidade, mas não se resume a isso. No estudo do Rio, entre as pessoas com o transtorno, 64,8% tinham obesidade, 27,1% tinham sobrepeso e 8,1% tinham peso considerado normal. A amostra com o transtorno era pequena, mas o recado é claro: ele pode acontecer em corpos diferentes, e obesidade não é sinônimo de compulsão.

O estigma do peso, aquele julgamento de que a pessoa só precisa se esforçar mais, piora o problema. Um consenso internacional publicado na Nature Medicine concluiu que o estigma do peso está associado a sintomas depressivos, mais ansiedade, autoestima mais baixa e comportamentos como compulsão alimentar e comer emocional. O mesmo documento afirma que a regulação do peso corporal não está totalmente sob controle da vontade e que quem sofre preconceito em serviços de saúde pode passar a evitar o cuidado.

A revisão da Nature Reviews vai na mesma linha. Estigma e vergonha são as barreiras mais frequentes para quem precisa pedir ajuda. Muitas pessoas procuram ajuda com o objetivo de emagrecer, às vezes sem saber que têm um transtorno alimentar.

Dietas também entram nessa conta. A mesma revisão coloca a dieta entre os fatores de risco para a compulsão, e o NHS orienta não tentar fazer dieta durante o tratamento, porque isso pode dificultar parar os episódios. Na psicoterapia, o foco é a sua relação com a comida e com as emoções, e não o número da balança.

Qual é o tratamento para compulsão alimentar?

A revisão da Nature Reviews resume assim: a psicoterapia é o tratamento de primeira linha para o transtorno de compulsão alimentar, e a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a abordagem com a evidência mais ampla. Outras psicoterapias, como a interpessoal e a comportamental dialética, também têm respaldo científico.

Os números ajudam a entender por quê. Uma metanálise de 2019 reuniu 81 ensaios clínicos randomizados, aqueles em que os participantes são sorteados para cada grupo, com 7.515 pessoas. Comparada à lista de espera, a psicoterapia, na maior parte TCC, teve efeito grande na redução dos episódios e na interrupção da compulsão. Os remédios, na maioria das vezes, superaram o placebo, mas com efeitos pequenos. Em alguns estudos, a psicoterapia também foi melhor do que tratamentos comportamentais focados em perda de peso.

Os autores fazem uma ressalva honesta: a qualidade das evidências sobre os episódios de compulsão foi, em geral, considerada muito baixa, e mais pesquisas de boa qualidade são necessárias.

Outra revisão sistemática com metanálise, de 2016, analisou 34 ensaios clínicos. A TCC conduzida por terapeuta deixou quase cinco vezes mais provável que a pessoa ficasse sem episódios de compulsão ao fim do tratamento, em comparação com quem estava na lista de espera: 58,8% contra 11,2%. A limitação é que a maioria dos participantes eram mulheres brancas de 20 a 40 anos com sobrepeso ou obesidade, e os resultados raramente foram medidos depois do fim do tratamento.

Esses números vêm, em grande parte, de estudos com TCC. Existem diferentes abordagens de psicoterapia, e a Cristiane trabalha com a abordagem fenomenológica, em que psicóloga e paciente colaboram para explorar de forma profunda e aberta as vivências, os sentimentos e os pensamentos ligados à comida e ao corpo. A psicóloga procura entender como você percebe e interpreta o mundo ao seu redor e ajuda a identificar os padrões de pensamentos e comportamentos que influenciam a sua visão de si mesmo e dos outros. A abordagem também reconhece que a existência é marcada por conflitos internos entre desejos e limitações e destaca a importância de enfrentar esses conflitos de maneira autêntica.

Quando necessário, a psicoterapia pode caminhar junto com acompanhamento médico e nutricional.

Quando procurar ajuda?

Vale buscar uma psicóloga se:

  • os episódios se repetem e você sente que perde o controle;
  • você come escondido ou sente muita vergonha depois;
  • sua vida gira em ciclos de dieta rígida e compulsão;
  • você deixa de ir a encontros por causa da comida ou do corpo;
  • a culpa com a comida afeta seu humor, seu sono ou seu trabalho;
  • tristeza ou ansiedade acompanham os episódios.

Se você está em crise ou pensando em se machucar, ligue 188 (CVV, gratuito, 24 horas) ou procure o SAMU (192) ou um pronto-socorro.

Como a psicoterapia pode ajudar, no consultório ou online?

Como a vergonha é uma das maiores barreiras, vale começar pelo formato em que você fica mais confortável, no consultório ou online. Para algumas pessoas, dar o primeiro passo de casa torna tudo um pouco mais leve: na psicoterapia online, você conversa com a psicóloga por vídeo, no lugar onde se sente mais à vontade, sem deslocamento.

O formato tem respaldo. Uma metanálise de 2021 concluiu que a psicoterapia por vídeo teve resultados praticamente iguais aos da presencial. Os resultados por tipo de problema destacam ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, e não a compulsão alimentar em si. Ainda assim, a abordagem é a mesma no consultório e no atendimento online.

Cada processo tem seu ritmo, e não existe prazo ou resultado garantido. O que a psicoterapia oferece é um espaço sem julgamento para entender a sua relação com a comida e construir, passo a passo, outras formas de lidar com o que você sente.

A Cristiane Morgado Porto é psicóloga clínica (CRP 06/195101), trabalha com a abordagem fenomenológica, que busca compreender como cada pessoa percebe e vive as próprias experiências, com foco na autenticidade e na autonomia, e atende adultos no consultório em São José do Rio Preto (SP) e também online, para todo o Brasil. Compulsão alimentar e outras dificuldades com a alimentação estão entre os temas com que ela trabalha.

Em resumo

  • O transtorno de compulsão alimentar envolve episódios repetidos de comer muito com perda de controle, seguidos de sofrimento, sem compensações regulares.
  • Comer emocional é comum e não é diagnóstico. A compulsão se diferencia pela perda de controle, pela frequência e pelo sofrimento.
  • O transtorno aparece em pessoas de diferentes pesos, e o estigma do peso piora o quadro e afasta do cuidado.
  • A psicoterapia é o tratamento de primeira linha.
  • Dietas restritivas tendem a atrapalhar. O foco do tratamento é a relação com a comida e com as emoções.

Quer conversar sobre isso?

Se você se reconheceu em algum ponto deste texto, saiba que procurar ajuda não é fraqueza nem exagero. Quando sentir que é o momento, você pode agendar uma consulta com a Cristiane, no consultório em Rio Preto ou online, para conversar sobre o que está vivendo, no seu tempo.

Perguntas frequentes

Compulsão alimentar é falta de força de vontade?

Não. O transtorno de compulsão alimentar é um diagnóstico reconhecido no DSM-5 e está ligado a vários fatores. O NHS, serviço público de saúde do Reino Unido, cita como fatores de risco histórico familiar, ansiedade, autoestima baixa, perfeccionismo e situações estressantes ou traumáticas. Tratar o problema como falta de esforço só aumenta a culpa e a vergonha, que estão entre as maiores barreiras para pedir ajuda.

Fazer dieta ajuda a parar a compulsão?

Em geral, não. Uma revisão publicada na Nature Reviews Disease Primers aponta a dieta como um dos fatores de risco para a compulsão, e o NHS orienta não fazer dieta durante o tratamento, porque isso pode dificultar parar os episódios. Restringir demais pode alimentar o ciclo de fome, perda de controle e culpa. Se houver necessidade de cuidar da saúde física, isso deve ser feito com acompanhamento profissional.

Só quem está acima do peso tem compulsão alimentar?

Não. O transtorno é mais frequente em pessoas com obesidade, mas aparece em corpos diferentes. Num estudo feito no Rio de Janeiro, com poucos casos do transtorno na amostra, 8,1% das pessoas com o transtorno tinham peso considerado normal e 27,1% tinham sobrepeso. O NHS também lembra que nem todo mundo com compulsão ganha peso. Por isso, o que define o quadro é o comportamento e o sofrimento, não a balança.

Qual a diferença entre compulsão alimentar e bulimia?

Nos dois casos existem episódios de comer muito com sensação de perda de controle. Na bulimia, a pessoa costuma tentar compensar com regularidade, por exemplo com vômitos, laxantes, jejum ou exercício em excesso. No transtorno de compulsão alimentar, essas compensações não acontecem de forma regular. Os dois são transtornos alimentares que merecem avaliação e acompanhamento profissional.

Psicoterapia online funciona para compulsão alimentar?

Uma metanálise de 2021 concluiu que a psicoterapia por vídeo tem resultados muito parecidos com os da presencial. Os resultados por tipo de problema destacam ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, e não a compulsão em si, mas a abordagem é a mesma no formato online.

Referências

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  10. National Health Service (NHS) (2023). Binge eating disorder: treatment. NHS, página revisada em 17 de julho de 2023.

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