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Ansiedade e depressão na gestação e no pós-parto

A gravidez e a chegada de um bebê costumam ser apresentadas como a fase mais feliz da vida. Para muitas mulheres, ela também traz medo, preocupação, cansaço e tristeza. Quando esses sentimentos ficam intensos ou não passam, pode ser ansiedade ou depressão, e isso é mais comum do que parece.

Sentir isso não é falta de amor pelo bebê nem fracasso como mãe. É uma questão de saúde, e tem cuidado. Aqui você vê o que as pesquisas mostram, inclusive no Brasil, como diferenciar baby blues de depressão pós-parto e como a psicoterapia pode ajudar.

Se você está em crise ou pensando em se machucar, ligue 188 (CVV, gratuito, 24 horas). Em emergência médica, ligue para o SAMU (192) ou procure um pronto-socorro.

Ansiedade e depressão na gravidez são comuns?

São. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que, no mundo, mais de 10% das gestantes e das mulheres que acabaram de dar à luz têm depressão.

A ansiedade também é frequente nessa fase. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2017 no British Journal of Psychiatry reuniu 102 estudos, com 221.974 mulheres de 34 países. Esse tipo de estudo busca todas as pesquisas sobre uma pergunta e junta os números numa estimativa só. Os resultados:

  • sintomas de ansiedade relatados pelas próprias gestantes apareceram em 18,2% delas no primeiro trimestre, 19,1% no segundo e 24,6% no terceiro;
  • o diagnóstico clínico de algum transtorno de ansiedade, feito por profissional, foi encontrado em 15,2% das gestantes;
  • depois do parto, entre 1 e 24 semanas, 15,0% tinham sintomas de ansiedade e 9,9% tinham diagnóstico de algum transtorno de ansiedade.

Sentir ansiedade de vez em quando faz parte da vida, ainda mais numa fase de tantas mudanças. O transtorno é quando ela fica intensa, constante e atrapalha a rotina, o sono e as relações. Os autores concluíram que a ansiedade nessa fase é muito frequente e merece atenção clínica.

Quantas mães têm depressão pós-parto no Brasil?

O retrato nacional mais amplo vem da pesquisa Nascer no Brasil, um estudo com 23.894 mulheres que tiveram bebê em 2011 e 2012. Num artigo publicado em 2016 no Journal of Affective Disorders, os pesquisadores entrevistaram essas mães por telefone entre 6 e 18 meses depois do parto, usando a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo. O resultado: 26,3% tinham sinais de provável depressão, cerca de uma em cada quatro.

Por que "provável"? A escala é um questionário de rastreamento: aponta quem tem mais chance de estar com depressão e precisa de avaliação, mas não fecha diagnóstico sozinha.

O estudo também olhou para o que aumentava a chance de ter esses sinais. O fator mais forte foi já ter tido algum transtorno mental antes. Também pesaram condição econômica mais baixa, uso de álcool, gravidez não planejada, ter três filhos ou mais e ter recebido cuidado inadequado no parto ou para o recém-nascido. Já as intervenções e complicações obstétricas não mostraram associação. Em outras palavras, o risco não tem a ver com força de vontade. Ele tem a ver com história de saúde, condições de vida e qualidade do cuidado recebido.

Qual a diferença entre baby blues e depressão pós-parto?

O baby blues é muito comum. Uma metanálise de 2020 com 26 estudos e 5.667 mulheres estimou que cerca de 39% das mães passam por ele, com grande variação entre os estudos (de 13,7% a 76%).

Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH), o baby blues é formado por mudanças de humor leves e passageiras, que costumam aparecer nas duas primeiras semanas depois do parto. Já na depressão pós-parto os sintomas são intensos ou duram mais de duas semanas, e, de acordo com o instituto, ela em geral não melhora sem tratamento.

Baby blues Depressão pós-parto
Intensidade Leve Intensa
Quando e quanto dura Passageiro, nas duas primeiras semanas após o parto Sintomas que passam de duas semanas
O que esperar Costuma passar em pouco tempo Em geral não melhora sem tratamento

O NIMH lembra ainda que a depressão não aparece só depois do parto. Ela pode começar durante a gravidez, a chamada depressão pré-natal. E existe a psicose pós-parto, que o instituto trata como emergência psiquiátrica: nesse caso, a orientação é buscar atendimento imediato.

Quais são os sinais de depressão na gestação e no pós-parto?

O NIMH lista sinais que merecem atenção:

  • humor triste, ansioso ou vazio na maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas;
  • desesperança, irritação, inquietação, culpa ou sensação de não ter valor;
  • perda de interesse pelas atividades, cansaço, dificuldade de se concentrar e de tomar decisões;
  • dificuldade para dormir mesmo quando o bebê está dormindo, ou mudanças no apetite e no peso;
  • dores sem explicação que não melhoram com tratamento;
  • dificuldade de criar vínculo com o bebê ou dúvidas persistentes sobre a própria capacidade de cuidar dele;
  • pensamentos de morte, de se machucar ou de machucar o bebê.

Muitas mulheres sentem vergonha de contar sobre o último item. Se acontece com você, é sinal de que precisa de ajuda agora, e pedir ajuda é um ato de cuidado.

O instituto reforça que qualquer gestante ou mãe pode ter depressão, e que a culpa não é dela. O risco é maior para quem tem história pessoal ou familiar de depressão ou transtorno bipolar, ou teve depressão em uma gravidez anterior.

A psicoterapia funciona na depressão perinatal?

Perinatal é a palavra usada para o período que vai da gravidez aos primeiros tempos depois do parto. Uma metanálise publicada na revista Psychological Medicine, que considerou a gravidez e até dois anos após o parto, reuniu 43 estudos com 6.270 participantes. Os autores concluíram que as intervenções psicológicas provavelmente são eficazes no tratamento da depressão perinatal.

Outros pontos do estudo:

  • o efeito ainda aparecia entre 6 e 12 meses depois;
  • houve sinais de melhora também na ansiedade, no apoio social, nas limitações do dia a dia, no estresse com os cuidados com o filho e no estresse na relação do casal;
  • a TCC foi de longe a abordagem mais testada, em cerca de metade das intervenções; a psicoterapia interpessoal e o aconselhamento de apoio apareceram bem menos;
  • os próprios autores pedem cautela, porque os estudos variam bastante entre si e alguns desses resultados vêm de poucas pesquisas.

O NIMH descreve o tratamento da depressão perinatal como psicoterapia, remédio ou os dois. Entre as psicoterapias, o instituto cita a TCC, que ajuda a identificar e mudar pensamentos e comportamentos que não ajudam, e a psicoterapia interpessoal, que trabalha relações, comunicação e rede de apoio. A decisão sobre remédio, principalmente na gravidez e na amamentação, é sempre do médico, junto com você.

Psicoterapia online serve para gestantes e puérperas?

Pode servir muito bem. Pense em ir a um consultório no fim da gestação, ou com um recém-nascido que mama a toda hora. O deslocamento costuma ser justamente o que trava o começo.

Uma revisão sistemática com metanálise de 2019 reuniu 7 estudos sobre intervenções psicológicas feitas pela internet para mulheres com ansiedade ou depressão na gestação ou no pós-parto. Comparadas aos grupos de controle, as participantes tiveram redução moderada nos sintomas de depressão e de ansiedade. Os autores consideram os resultados promissores, mas dizem que ainda são necessárias mais pesquisas, principalmente durante a gestação.

Esses estudos avaliaram programas pela internet, não necessariamente sessões ao vivo. Para a psicoterapia por videochamada com um profissional, uma metanálise de 2021 com dezenas de estudos, em vários públicos, concluiu que ela não é menos eficaz que a presencial.

No Brasil, a Resolução CFP nº 9, de 2024, do Conselho Federal de Psicologia, regulamenta o atendimento online. Ela pede que a psicóloga avalie se o formato é adequado para cada caso, informe os recursos usados para proteger o sigilo e tenha meios de atender ou encaminhar situações de urgência e emergência, inclusive para a rede presencial quando for o caso.

Como a psicoterapia pode ajudar nessa fase?

Na gestação e no pós-parto, é comum surgirem pensamentos como "eu deveria estar feliz", "não vou dar conta" ou "sou uma mãe ruim". Existem diferentes abordagens de psicoterapia, e a Cristiane trabalha com a abordagem fenomenológica, que busca compreender como cada mulher percebe e vive essa fase. Na prática, a psicóloga e a paciente exploram juntas, de forma aberta, esses pensamentos e sentimentos, os conflitos entre desejos e limitações que aparecem e os padrões que influenciam a visão que ela tem de si mesma e dos outros.

Algumas frentes possíveis de trabalho:

  • lidar com a preocupação constante com o parto ou com a saúde do bebê;
  • organizar uma rede de apoio e aprender a pedir ajuda;
  • ajustar expectativas sobre a maternidade, sem se comparar com o que aparece nas redes sociais;
  • planejar o pós-parto ainda na gravidez, pensando em descanso, divisão de tarefas e sinais de alerta.

Cada mulher vive essa fase de um jeito. A psicoterapia não promete resultado nem prazo; ela oferece um espaço para cuidar de você enquanto você cuida de outra vida.

Quando procurar ajuda?

Busque uma avaliação se você percebe:

  • tristeza, angústia ou ansiedade que passam de duas semanas;
  • sintomas que atrapalham comer, dormir ou cuidar de você e do bebê;
  • dificuldade de criar vínculo com o bebê;
  • preocupações que não desligam;
  • história anterior de depressão, ansiedade ou transtorno bipolar, mesmo que você esteja bem agora.

Converse também com a equipe que faz o seu pré-natal ou que acompanha o bebê. Eles podem ajudar a avaliar e encaminhar. Pensamentos de machucar a si mesma ou o bebê pedem ajuda imediata.

A psicoterapia, presencial ou online, não é um serviço de urgência. Se você está em crise ou pensando em tirar a própria vida, ligue para o CVV no 188, de graça e a qualquer hora, ou converse pelo chat em cvv.org.br. Em emergência médica, ligue para o SAMU no 192 ou procure a UPA ou o pronto-socorro mais perto de você.

Em resumo

  • Segundo a OMS, mais de 10% das gestantes e das mulheres que acabaram de dar à luz têm depressão, e a ansiedade nessa fase também é frequente.
  • No Brasil, a pesquisa Nascer no Brasil encontrou sinais de provável depressão em 26,3% das mães entre 6 e 18 meses após o parto.
  • O baby blues é leve e passageiro; sintomas fortes ou que passam de duas semanas pedem avaliação.
  • Uma metanálise de 43 estudos concluiu que a psicoterapia provavelmente é eficaz na depressão perinatal, e a TCC foi a abordagem mais testada.
  • O formato online tira a barreira do deslocamento numa fase em que sair de casa é difícil.

Quer conversar sobre isso?

Se você está gestante ou teve bebê há pouco tempo e se reconheceu neste texto, não precisa passar por isso sozinha. A Cristiane Morgado Porto é psicóloga clínica (CRP 06/195101), pós-graduanda em Psicologia Perinatal e trabalha com a abordagem fenomenológica. Ela atende gestantes, puérperas e outros adultos no consultório em São José do Rio Preto (SP) e também online, por videochamada, de qualquer cidade do Brasil. Quando sentir que é a hora, você pode agendar uma consulta pelo site, presencial ou online, no seu ritmo.

A psicoterapia, presencial ou online, não é um serviço de urgência. Se você está em crise ou pensando em tirar a própria vida, ligue para o CVV no 188, de graça e a qualquer hora, ou converse pelo chat em cvv.org.br. Em emergência médica, ligue para o SAMU no 192 ou procure a UPA ou o pronto-socorro mais perto de você.

Perguntas frequentes

Baby blues precisa de tratamento?

Segundo o NIMH, instituto de saúde mental do governo dos Estados Unidos, o baby blues é formado por mudanças de humor leves e passageiras, que costumam aparecer nas duas primeiras semanas depois do parto. Se os sintomas ficam fortes ou passam de duas semanas, pode ser depressão pós-parto, que em geral não melhora sem tratamento. Na dúvida, procure uma avaliação.

A depressão pode começar ainda na gravidez?

Pode. O NIMH explica que a depressão perinatal inclui a depressão durante a gravidez, chamada de pré-natal, e a que aparece depois do parto. Por isso, tristeza, angústia ou ansiedade que duram duas semanas ou mais já merecem atenção na gestação. Vale conversar com quem faz o seu pré-natal e buscar acompanhamento psicológico.

Psicoterapia online é segura para gestantes e puérperas?

O atendimento psicológico online é regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia na Resolução CFP nº 9, de 2024, que pede à psicóloga avaliar se o formato serve para cada caso, proteger o sigilo e ter meios de lidar com urgências. Estudos com vários públicos indicam que a psicoterapia por vídeo não é menos eficaz que a presencial, e o formato evita deslocamentos numa fase cansativa.

Posso tomar antidepressivo na gravidez ou amamentando?

Essa decisão é sempre médica e individual. O NIMH lembra que o tratamento da depressão perinatal pode envolver psicoterapia, remédio ou os dois, e que a escolha deve ser feita com um profissional de saúde. Converse com o obstetra ou com um psiquiatra sobre o seu caso e nunca comece nem pare um remédio por conta própria.

Referências

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS) (2026). Depressive disorder (depression). WHO Fact Sheets.
  2. Theme Filha MM, Ayers S, Gama SGN, Leal MC (2016). Factors associated with postpartum depressive symptomatology in Brazil: The Birth in Brazil National Research Study, 2011/2012. Journal of Affective Disorders, 194:159-167.
  3. Dennis CL, Falah-Hassani K, Shiri R (2017). Prevalence of antenatal and postnatal anxiety: systematic review and meta-analysis. British Journal of Psychiatry, 210(5):315-323.
  4. Rezaie-Keikhaie K, Arbabshastan ME, Rafiemanesh H, Amirshahi M, Ostadkelayeh SM, Arbabisarjou A (2020). Systematic Review and Meta-Analysis of the Prevalence of the Maternity Blues in the Postpartum Period. Journal of Obstetric, Gynecologic & Neonatal Nursing, 49(2):127-136.
  5. National Institute of Mental Health (NIMH) (2023). Perinatal Depression (NIH Publication No. 23-MH-8116). NIMH, National Institutes of Health.
  6. Cuijpers P, Franco P, Ciharova M, Miguel C, Segre L, Quero S, Karyotaki E (2023). Psychological treatment of perinatal depression: a meta-analysis. Psychological Medicine, 53(6):2596-2608.
  7. Loughnan SA, Joubert AE, Grierson A, Andrews G, Newby JM (2019). Internet-delivered psychological interventions for clinical anxiety and depression in perinatal women: a systematic review and meta-analysis. Archives of Women's Mental Health, 22(6):737-750.
  8. Fernandez E, Woldgabreal Y, Day A, Pham T, Gleich B, Aboujaoude E (2021). Live psychotherapy by video versus in-person: A meta-analysis of efficacy and its relationship to types and targets of treatment. Clinical Psychology & Psychotherapy, 28(6):1535-1549.
  9. Conselho Federal de Psicologia (CFP) (2024). Resolução CFP nº 9, de 18 de julho de 2024: regulamenta o exercício profissional da Psicologia mediado por Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação. Diário Oficial da União, 30 de julho de 2024 (texto reproduzido no LegisWeb).

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